Nilton

Portugal sem Destino com Nilton

“E vamos para onde? ”Logo se vê”. O desafio lançado há mais de 10 anos pelo meu amigo Filipe Simões, o designer, concretizou-se finalmente mas com restringidas regras. A saber: circular apenas e só em estradas nacionais; circular moderadamente, com especial atenção dentro das localidades; parar para atestar a cada 200 quilómetros; não termos destino definido.

Eu, motard de cidade – como diz um amigo meu, sempre achei que os motards nasciam numa árvore. As laranjas vinham da laranjeira, os limões dos limoeiros e os  motards vinham do motardeiro. Casca de cabedal por fora e tatuagens por dentro –, que usa todos os dias a Moto Guzzi V7 mas apenas e só em Lisboa, estreava-me assim nos passeios de mota. Confesso que me equipei desalmadamente pois desconhecia o conforto do “sofá” que usei para esta odisseia – a Moto Guzzi Norge 1200 é mais confortável que a minha poltrona e estou capaz de fazer a troca em breve, só tenho de tirar uns móveis primeiro  para a mota caber na sala –, e cedo percebi que dispensava cinta, casaco de inverno e tudo mais.

“Pequeno almoço em Évora?”, inquiria o meu companheiro de viagem ao telefone (um desabafo que não tem nada a ver para o caso mas sempre que digo a palavra “companheiro” lembro-me que o Manuel Luís Goucha apresentou o “companheiro” em várias capas de revistas. Acho que terá sido um termo propositado porque ao lerem aquilo as senhoras de mais idade que vêm o programa terão exclamado: “Companheiro? Nem sabia que o Goucha era de esquerda!” O uso deste tipo de eufemismos vem um pouco na linha de pensamento do ex-presidente Jorge Sampaio que concorreu às Presidenciais dizendo que era “Ateu”. Se ele dissesse que não acreditava na existência de Deus os eleitores mais velhos nunca votariam nele, assim terão achado que “Ateu” seria alguém que provavelmente não comeria atum).

Onze da manhã. Pequeno almoço na Praça do Giraldo em Évora. A conversa sobre um possível destino não dura mais que dois minutos porque não há destino. “Vamos subindo”.

Aproveito a pausa para ligar ao Dr. Francisco Pinto Balsemão que convidara uns meses antes para estar comigo no 5 Para a meia-noite e me pedira para lhe ligar no final do verão. Confirma a presença. Ganhei o dia.

Évora em direção a Estremoz pelas retas do Alentejo que tantas vezes percorri quando saía do Algarve para passar o Natal em Proença-a-nova. Quatrocentos e oitenta quilómetros ao som do “Driving home do Christmas” do Chris Rea e só agora tenho a noção da quantidade de paisagem que perdemos a viajar de carro. Castelo de Estremoz ao fundo e decidimos continuar. Portalegre. Alto Alentejo a contemplar o triste cenário de pinheiros ardidos mas ao nível de cansaço parece que ainda nem saímos de casa.

Concordámos que o almoço tardio seria no centro de Castelo Branco. Esplanadas do passeio verde agora remodelado e a refeição confirma que Portugal tem tudo para ser um óptimo país de turismo mas em muitos sítios a hotelaria continua a ser tocada a pontapé.

É em terras albicastrenses que sentimos pela primeira vez o “espírito motard” por parte de um dos organizadores da concentração em Castelo Branco que faz questão de nos acompanhar à saída da cidade que teimávamos em não conseguir encontrar. Outro reparo, com a construção de IP´s e auto-estradas várias esquecemos amiúde de sinalizar as estradas nacionais. Bem haja este jovem que ou foi verdadeiramente simpático ou queria ter a certeza que nos íamos embora.

Nilton em Portugal sem Destino

Alcains, Fundão por estradas em que as árvores abraçam o alcatrão e apetece voltar a passar vezes sem conta. Covilhã ao fundo com a serra da estrela imponente e convidativa. É lá que passamos a noite e da mesma serra descemos às 9 da manhã do dia seguinte. Guarda é o próximo destino que nos baralha as voltas sempre que queremos apanhar uma estrada nacional. As curvas da serra convidam a que a mota se deite e provam que na batalha engenharia italiana VS gravidade, ganharam primeiros. A este ritmo de curva contra curva não é difícil adivinhar que só pararíamos para um almoço em Lamego, terra que esconde o Teatro Ribeiro Conceição, um dos mais bonitos onde já atuei.

Com o Rio Douro a chamar por nós fomos subindo e quando percebemos tínhamos chegado à Régua.

A dúvida instalou-se. Subir até Espanha ou continuar a pagar a gasolina mais cara?

Guimarães Capital Europeia da Cultura apeteceu mais e as curvas de Amarante provaram de novo para que serve a Norge.

O jantar só podia acontecer no “Histórico” em Guimarães ao som de fado e das boas histórias do Sr. Vitorino, naquele que é para mim um dos melhores restaurantes deste país, ainda por cima inserido numa das mais bonitas cidades que é visita obrigatória, seja este ano ou noutro qualquer.

Nilton e Filipe Simões

O resto da viagem foi a descer o país num misto da angustia que é a Estrada Nacional 1 e na necessidade de prevaricar na nossa regra de não uso de auto-estradas mas uma visita há muito prometida ao Presidente da Câmara das Caldas da Rainha empurrou-nos para a A8 mas valeu por esta dica. Foz do Arelho – Marisqueira A Cabana do Pescador GPS: 39.433052, -9.227650.

A última noite acabou com uma lição sobre como gerir uma câmara sem dívidas e um jogo de Bowling a três com o Presidente Fernando Costa a provar que andando sem destino somos sempre surpreendidos pelo inusitado.

Os 1800 km´s foram acima de tudo uma ode à aventura e à amizade, não só entre mim e o Filipe Simões como aos amigos virtuais. É que à medida que fui postando a viagem no facebook, inúmeras pessoas faziam Like na página e admitiam nunca ter gostado de mim, mas como me viram de mota passaram a gostar. Ou seja, podia até ser para eles o pior ser humano do mundo, mas como ando de mota, sou boa pessoa. Perdoai-lhes Senhor, é o espírito motard a falar.



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